Saguis dão pistas visuais de gravidez, conclui estudos da UFRN

Saguins

Por Williane Silva e Marcos Neruber

 

Já é sabido que a comunicação animal se baseia em sinais acústicos, químicos, comportamentais e visuais, mas será que é possível detectar uma gravidez pela cor ou luminância da pele? Pesquisadores do Instituto do Cérebro (ICe) e do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em trabalho com alunos da Pós-graduação em Psicobiologia, constataram que saguis, que são primatas neotropicais, percebem por meio de pistas visuais que as fêmeas de sua espécie estão gestantes.

De acordo com a professora do ICe, Maria Bernardete Cordeiro de Sousa, o questionamento sobre a possibilidade de perceber uma gestação por sinais visuais começou ainda na década de 1990 até chegar a este estudo realizado pela primeira vez com saguis. “Buscamos observar se as fêmeas dominantes emitiam sinais visuais para as fêmeas subordinadas e para os machos, sinalizando a sua gravidez”, explica.

Ainda segundo a pesquisadora, a necessidade de sinalizar uma gravidez para os membros da espécie se dá por questões de sobrevivência e reprodução, pois os machos precisam se preparar fisicamente, inclusive, ganhando peso para cuidar do filhote. Além disso, poderia ser uma forma de a fêmea dominante sinalizar para a fêmea subordinada a sua gestação, com possibilidade de inibir a gestação da mesma no grupo social.

Método e resultados

A pesquisa foi realizada com o suporte do Laboratório de Estudos Avançados em Primatas (LEAP) da UFRN, uma colônia de quase 200 saguis. Quatro fêmeas de sagui comum, seus parceiros reprodutivos e filhotes foram alojadas em área cercada ao ar livre, em condições naturais em temperatura, umidade e iluminação, com acesso à luz do sol, frutas sazonais e ração e em contato parcial com outras famílias de saguis e com a vegetação.

O estudo procurou medir dois fatores visuais da pele da região genital e da coxa das fêmeas durante a gravidez – a luminância e a cor. Segundo Maria Bernardete, a explicação para a escolha desses dois elementos se deu porque os primatas neotropicais machos são dicromatas, ou seja, enxergam o espectro de apenas duas cores; já a maior parte das fêmeas é tricromata, conseguindo visualizar a partir de três pigmentos distintos, com visão semelhante a dos seres humanos. Como a visão dos machos é limitada para as cores, também foi necessário observar aspectos acromáticos, ou seja relacionados a intensidade de luz (luminância).

Dessa forma, poder-se-ia dizer que os tricromatas estariam em situação vantajosa do ponto de vista evolutivo por enxergar mais cores. Os resultados do trabalho porém, sugerem que, considerando o aspecto “gestação”, os fatores acromáticos ou de luminância prevalecem em comparação aos cromáticos, pois, com a observação dos cinco meses de gestação do animal, verificou-se que o contraste cromático diminuiu no período próximo ao parto, possibilitando a visualização somente dos tricromatas, ou seja, só as fêmeas conseguiram enxergar. Já o contraste de luminância aumentou, fator visualizado por ambos os sexos da espécie.

“A literatura científica vem buscando a explicação por vários tipos de pistas, que poderiam ser de natureza olfativa, por exemplo. Mas, no ambiente natural do primata, ele necessita fazer observações a distância. Então, evolutivamente, o sinal visual deve prevalecer”, esclarece Bernardete.

De qualquer forma, os pesquisadores acreditam que análises futuras, considerando a relação dos hormônios sexuais, do comportamento visual e das informações acústicas, podem trazer contribuições ainda maiores.

Além de Maria Bernardete Cordeiro de Sousa, a pesquisa também foi realizada por Daniel Marques Almeida Pessoa (professor do Departamento de Fisiologia), Laís Alves Antonio Moreira e Danilo Gustavo Rodrigues de Oliveira (alunos de pós-graduação).

O artigo científico resultante foi publicado em junho de 2015 na revista científica on-line PLoS ONE. Para vê-lo, acesse:http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0129319.

Cordialmente, 
ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DO CENTRO DE BIOCIÊNCIAS/UFRN

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