REFLEXÃO SOBRE A CULPA DE UNS OU DE OUTROS NA CIDADE DE PEDRO AVELINO/RN

Leonardo Bezerra

<lrb.souza@gmail.com>

Contam de calçada em calçada que a cidade de Pedro Avelino, localizada na Região Central do Rio Grande do Norte, a região do Cabugi, sofre um retrocesso tremendo, culpa de A ou de B. Uma desculpa muito simplória, para começo de conversa, supor a existência de dois ou três grupos políticos em Pedro Avelino é uma ingenuidade. Nesta cidade só existe um grupo político, assim como em tantas outras cidades da região e do estado. Em terras potiguares a história de suas cidades se copiam, chegam a se plagiar, todas vivem seus retrocessos, todas possuem líderes políticos que acusam uns aos outros de afundar seus municípios, onde, na verdade, ambos são culpados do que ocorre e não se afastam um do outro.

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                                                                                                                                            Foto extraída da página do Facebook da Prefeitura Municipal de Pedro Avelino (RN)

Pedro Avelino, não diferente das outras, mas com certa extravagância, teve o “privilégio” de possuir seu próprio Barão, mesmo com a queda dos títulos nobres. Ainda em meados do século XX, Chico Câmara ostentou o título de Barão e mandou o quanto pode. Enfrentou novos nomes da velha política, entre eles: o Deputado. De enfrentamento em enfrentamento, formam-se os Coronéis dessa terra, bem como os projetos de Coronéis. Estes são, se possível dizer deste modo, um pouco pior do que os coronéis já formados, pois eles trazem consigo um projeto de continuidade da miséria do povo da pequena cidade, porém não possuem a envergadura da formação do coronel já atuante.

Dito de outro modo, Pedro Avelino, possui uma decadência de coronéis. Hoje em dia, a cidade possui um ou dois, no entanto, a elite da cidade ainda trabalha para criar novas possibilidades de coronéis, sempre espelhados em algum de maior poder. Voltando ao eixo desta conversa, podemos afirmar que nesta cidade não há dois grupos políticos, mas somente um. E é todo este conjunto de políticos que foi o responsável pela destruição desta cidade. Basta lembrar que aqueles que na última campanha estiverem de lado oposto, noutras campanhas estiveram do mesmo lado, isto daria uma excelente análise histórica, que não vem ao caso neste texto, mas que daria uma pesquisa belíssima, nos faz falta o Prof. Onofre Batista para revelar, através de um histórico da política dessa cidade, que o jogo de poder vem se repetindo.

Mesmo sem um histórico podemos refletir sobre esta alternância (fictícia), nos basta consultar os sobrenomes dos prefeitos que tivemos. É constante, quando não unânime, que os sobrenomes: Costa, Câmara, Antas e Trindade se misturem e estejam presentes nesta lista. Coincidência ou não, estas famílias são as detentoras de enormes propriedades rurais, bem como, são cristãs, normalmente da Igreja Católica e se revezam num jogo de embolsar cada vez mais dinheiro. Enquanto inúmeros trabalhadores estão sem emprego, sem terra e sem dignidade.

Abrindo um breve espaço para a questão da terra, nos vale lembrar que estas terras outrora produtivas, ampliavam as desigualdades sociais da cidade, pois deixavam o poder nas mãos de poucos, hoje elas continuam gerando capital sobre o trabalho, seja com a instalação de parques e vias dos projetos eólicos ou a venda à reforma agrária (tão pífia quanto o governo ilegítimo do Brasil). Mesmo anos depois do império do algodão (que só ampliou a riqueza de alguns) estas terras ainda escancaram a desigualdade, a vastidão de terra desperdiçada e a construção de oligarquias que insistem em surrupiar a vida digna deste povo. É interessante lembrar que a câmara de vereadores da cidade tem profunda ligação com o agronegócio local, então como poderemos separar um grupo do outro? Pois antes de ser bacurau ou arara, eles são latifundiários.

Falam as boas-más línguas que a vaquejada faria o dinheiro ‘correr’ em Pedro Avelino, pena que alguém que diga isto, não fale também para onde corre este dinheiro. Diz o ditado que a água só corre para o mar, mas que mar é este? Quem o privatizou? Como isto se deu? Certamente, por exemplo, este mar não se localiza nem passa perto dos bairros São Francisco e São Geraldo, pois eles ainda amargam uma pobreza visível em casas de taipa, em gente desempregada, no envolvimento da juventude com drogas. Então, onde está este mar? Certamente, e ‘coincidentemente’, quem lucra com a vaquejada lucra com campanhas eleitorais, e quem venceu a última campanha eleitoral se beneficia desse movimento promovido por um adversário, ou seja, neste jogo todos ganham, exceto o povo pobre.

Estes problemas não são somente de ordem econômica, mas também de ordem moral. Pois, enquanto são erguidas casas sofisticadas por alguns, outros moram em casa de taipa. Enquanto uns usam drogas, livres de qualquer punição, outros (pobres) são usuários agredidos e vilipendiados pela própria lei e pelo Estado, mas só sabe o que é a severidade da lei, aquela gente pobre. Assim como, mais sabe o valor de um prato de comida, o trabalhador que não pode encher o prato de sua família. Mas a elite desta cidade nunca deixou de saborear galinha torrada com cachaça, à custa do suor e do desemprego de outros.

Portanto, culpar A ou B, é desviar o real problema dessa cidade. Quem quer transformar esta cidade não pode partir de premissas antiquadas, como estas que se apresentaram ao longo de toda sua história. Esta elite da galinha torrada com cachaça é a mesma do Barão, do Deputado e dos Empresários do Leite. É o mesmo grupo que elegeu seus descendentes baseados na miséria de alguns, é o mesmo grupo católico, mas que não compreendeu a missão cristã, ou pior que isso, nega a fé cristã e só se aproxima dela nas festas consagradas, tais como padroeiro, emancipação política, entre outros.

Não somente crítico a igreja católica, à ela cabem outras tantas críticas, pois ela em sua história neste município, não só foi conivente e omissa, como também foi atuante na condição de falta de dignidade que aflige o povo pobre. Basta lembrar que ela possui o centro de Pedro Avelino registrado em cartório. Assim como, ela se omitiu de dar autonomia ao seu povo. Sobre a igreja católica é possível escrever teses, pois sua função nestas terras colaborou significativamente para a sustentação da miséria dos oprimidos e excluídos, e a manutenção das oligarquias no poder. Ela não é a única responsável, o movimento neopentecostal e as igrejas protestantes, assumindo o papel de aproveitadoras da condição de fragilidade do povo, vendem a obra de Jesus como símbolo de ascensão social, e não como prática de luta e de resistência de uma vida cristã digna, desta forma elas também atuam para a situação desta cidade.

1                                                                                                                                                                              Foto do autor.

Volto à igreja católica por seu tempo e sua história neste município. Pois aqui ela se atrela diretamente à pedagogia de Antônio Antas, outro membro de uma família poderosa da cidade, que construiu uma escola para poucos. Através de sua rigidez deu mais força política aos grupos da elite, não é à toa que ele foi mestre dos atuais coronéis e símbolo de educação da cidade. Mas sua pedagogia excludente e opressora nunca chegou a educar as pessoas que realmente precisavam, nunca educou para emancipar, como fizeram D. Helder Câmara, D. Evaristo Arns ou mesmo o pensador Paulo Freire. Sua educação reforçou as desigualdades, através de uma escola católica onde deveriam participar os filhos da elite da cidade ou aqueles pobres que se submetiam à igreja. Estes últimos visavam a libertação por meio do estudo, embora não soubessem disso. Mas esta não era uma ideia da escola, a escola serviu para dar mais poder a quem já o possuía.

Se o pilar econômico que destrói a cidade e maltrata os que aqui vivem, pode se ligar diretamente ao grupo político hegemônico que governa esta cidade deste o início, certamente o pilar moral chama-se Antônio Antas, que ainda vive nesta cidade como símbolo da educação, mas da educação severa que conforma pobre no lugar do pobre e rico no lugar do rico, como se houvessem lugares definidos. Infelizmente ainda há. Não acompanhei a chegada de algum padre que ensinasse seus fiéis a se revoltar contra a injustiça que sofrem. Mas ao contrário, os párocos reforçam a servidão, quando cada vez mais necessitam de coroinhas segurando a bíblia, o microfone. Os párocos se vestem com a suntuosidade que é cabível ao período medieval, o que reforça o poder concentrado em sua mão, na mão de um homem.

Por isso a igreja não guiou, como ocorre em muitos outros lugares, revoltas, greves, apoio ao movimento dos sem terras. A igreja desta cidade, acovardou-se, quando não, aliou-se e oprimiu tanto quanto os coronéis. Hoje briga por espaço em meio a juventude cada vez mais neopentecostal, mas briga pelo monopólio da fé, e não pela libertação do seu povo oprimido. Esta igreja esqueceu o sermão da montanha. Esqueceu também que Jesus mandou o jovem rico largar tudo, dar tudo aos pobres, a igreja nesta cidade não quer largar tudo, ao contrário, celebra missa de início de mandato daqueles que acabaram e acabam com a cidade, mas não semeia a reflexão sobre as terras negadas, nem sobre a concentração de poder e de riqueza nas mãos de poucos, mãos daqueles que tiram o pão.

Digo isto, não para causar polêmica, mas sim para promover reflexão. Pois nesta história, todos são culpados do que ocorre em Pedro Avelino, até mesmo São Paulo Apostolo, atentai bem! Não o São Paulo base da igreja e da evangelização cristã, mas sim o São Paulo dono de terras, proprietário de casas e aquele que é padroeiro de uma igreja que sempre é reformada, enquanto seus afilhados nem casa tem. Levanto a questão: quem são os afilhados de São Paulo, é o povo pobre ou aqueles que no seu dia levam envelopes com dinheiro para a missa? São os pobres ou aqueles que tem acento reservado no dia de missa? Ele pode ser padroeiro de todos, mas me parece estranho apadrinhar o povo e o tirano. Não cito a necessidade de se excluir o tirano, mas exige-se dele a retirada da tirania e a divisão da terra, não o conforto a uns e outros não. E se o tirano não quer entregar a terra, que o povo arranque de suas mãos e partilhe entre os que precisam, com prioridade sobre os que mais precisam.

Existe um comboio de culpados e reduzir a discussão a A ou B é deixá-los em paz, desfrutando dos privilégios que sempre desfrutaram. A saída não é apenas votar contra, mas se manifestar, brigar até o fim, lutar contra eles, falar e gritar. É preciso unir os grupos fragilizados, como Mulheres, LGBTs, Negros, criar movimentos sociais que atuem em defesa de suas causas. Nos últimos anos houve greve e parada dos professores e de outros trabalhadores, é hora de reforçar o apoio a movimentos desse tipo. É hora também dos professores liberarem os alunos e irem todos juntos à manifestação por salário, por terra, por dignidade. Se faz urgente educar para Libertar, pela Libertação. É preciso que se construa uma candidatura popular, não hegemônica, que rompa com estes que aí estão, todos no mesmo pacote de farinha estragada pelo tempo.

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