O médico do povo

zelito

Em 06 de junho de 1927, na cidade de Angicos, nasceu Zelito Calaça, filho do dentista Francisco Emílio Gomes Calaça, natural de Alagoas, e de dona Maria de Araújo Calaça, de Angicos. Seu pai era dentista formado pela faculdade de Alagoas. Este, trabalhou em vários municípios das regiões Central, Mato Grande e Salineira do nosso Estado. Isso fez com que seu filho, Zelito, o acompanhasse ainda menino e abandonasse os seus estudos para se dedicar à sua futura profissão como protético e, depois, ‘médico’, ‘dentista’e farmacêutico. Desde a mocidade, após a morte de doutor Calaça, Zelito passou a fazer extração e prótese dentária em vários municípios. Em 1957, fixa residência em Pedro Avelino e se casa no ano seguinte com dona Maria da Conceição Carneiro, filha do agropecuarista e liderança política da época, o ex-prefeito José Carneiro Filho. A partir desse momento, Calaça se dedica à saúde do povo dessa cidade. Do seu lado sempre existiu a prática fervorosa da sua profissão: bondade , dedicação, paciência, além do lado humano. Nas décadas de 1950, 1960 e 1970 trabalhar na área da saúde era um verdadeiro sacerdócio, uma missão para a qual Zelito se doava no seu exercício de curar os doentes, servir à sociedade e fazer o bem ao próximo. Era o tempo do ‘médico’ humanitário, a casa aberta para servir a qualquer hora do dia, como se fosse um posto de saúde.

Esse homem foi um obreiro na saúde do município. Era chamado de doutor Zelito, numa época em que não existia médico na cidade, depois, alguns médicos apareceram nos fins de semana. Calaça era exímio na prática. Consultava e passava remédios jamais desaprovados por médicos especialistas. De acordo com os sintomas acertava na maioria das vezes: quando a pessoa estava com pedras nos rins; doenças do fígado, como cirrose, hepatite, problemas de vesícula etc. Ele fazia quase de tudo: pequenas cirurgias; engessava braço, clavícula, perna; fazia extração dentária, chapa, obturação; era perito no parto, inclusive, alguns complicados e, também, em curar crianças com doenças comuns através de remédios populares daquela época. Injeção, aplicação, curativos etc, não custavam nada. A sua farmácia ‘Socorro Farmacêutico Zelito Calaça’ foi à falência várias vezes. Dava remédio ao povo e não cobrava nada. Dizia: ‘vim para servir aos pobres’. Era defensor fervoroso da saúde pública, de tentar combater as doenças comuns da região. Mesmo o doente quando estava numa situação difícil, existia o esforço e a força de vontade pelo seu lado humano. Isso sem recompensas financeiras, pois ele sempre dizia: ‘vim para servir, não para ser servido’.

Aos sábados, dia de feira na cidade, atendia a muitas pessoas das zonas urbana e rural. Na sua farmácia, o atendimento começava às sete da manhã até cinco da tarde ou enquanto tivesse gente na fila para a consulta, pois naquela época a feira terminava tarde. Além da consulta, dava o remédio aos pobres ou vendia fiado e, na maioria das vezes, não cobrava e nem recebia nenhum tostão. Na ‘caixinha’, nada de dinheiro dos mais humildes. Mas, em compensação, recebia do homem do campo galinha, ovos, feijão verde, jerimum, melancia e outras coisas mais. E ficava satisfeito.

Hoje, que tanto se fala em médico de família, é bom lembrar que naquela época Calaça já fazia isso em Pedro Avelino, de verdade, conhecendo o corpo e a alma do paciente e sabia o que estava acontecendo porque fazia acompanhamento quase que diariamente. Muitos choravam num ato de eterna gratidão. Hoje em dia o que existe é a frieza do atendimento de alguns médicos, sem ir na casa do paciente, principalmente, na zona rural, com rara exceção. Calaça era desse jeito, falava, escutava e fazia visita ‘médica’ aos seus pacientes. Era um ser humano que se interessava pela cura, que tirava as dúvidas e dava esperança e uma palavra de conforto. Também julgava ser adepto de remédios homeopáticos, que dizia curar a saúde de alguns enfermos.

Devido aos serviços prestados conquistou muitas amizades e foi cooptado para a política e para o ambiente elitizado, pois tinha um serviço na área da saúde invejável. Se candidatou para prefeito em 1962 e para vice-prefeito em 1968 e 1988. Perdeu em ambas as campanhas. Antes, em 1982, foi eleito o vereador mais votado do município com mais de 10% do eleitorado total. A sua casa estava sempre cheia de amigos, colegas, ricos, pobres, cristãos, ateus, políticos e intelectuais. Era um ponto de convergência para uma boa conversa que a cidade tinha na sua paisagem humana. Chegou a hospedar em sua residência médicos, juízes, promotores, fiscais de banco, viajantes e outros. No bate-papo tinha gente como os juízes Luís Carlos Guimarães, Manoel dos Santos, doutor Levi; os médicos Juan Rivas Zambrana, Mauro Carmelo dos Santos, Pablo Pachá Quintela, José Martins dos Santos; o poeta Gilberto Avelino e outras pessoas ilustres que nos fogem a lembrança. E entre eles viam-se também pessoas simples. Alguns nem entravam , ficavam na calçada trocando conversas. Isso pela década de 1960 e início de 1970. Outros dormiam na sua residência.

Com a chegada de médicos na cidade, muitas famílias ainda o procuravam para consultar seus entes queridos doentes, embora, em menor escala. Mas, com o fim da farmácia, a idade, o declínio político e financeiro, ocorreu a exclusão dos espaços sociais em sua residência. Tudo pela falsa elite hipócrita, deformada, de conveniências e aproveitamento que afagara, deu-lhe gelo sem fim, impingindo-lhe o ostracismo amargo em que teve, permanecendo sua vida pelo lado bom e humano servindo aos pobres, com desilusões e decepções, quase todas elitistas.

Registra-se uma reparação necessária à brutal injustiça que marcou em fel anos de vida em Zelito Calaça, pela falsa burguesia local. Jovem, humano, conversador, gentil homem, prestador de serviços gratuitos, com isso, dominou o meio jovem e adulto da década de 1960 na área política e social da cidade do algodão.

É de entristecer que na sua velhice caminhou inevitavelmente para o esquecimento, por melhor que tenha sido ou que tenha dado de si aos seus semelhantes, o ser humano é capaz de injustiças, ingratidões, incompreensões. Calaça esqueceu tudo isso através das virtudes espirituais e de um bom coração, já que uma das propriedades do ser humano é de esquecer com facilidade tudo que um dia lhe foi útil ou que teve sua importância.

Queira Deus que o nome do ‘médico e dentista’ Zelito Calaça seja lembrado para sempre, que ele durante alguns anos não se encontre no sepulcro dos esquecidos. Entretanto bem que poderíamos retardar esse ostracismo a que foi relegado, com palestras mostrando o lado histórico do seu trabalho repassando quem foi ele e o que ele fez, principalmente, para essa juventude local, pois se Zelito Calaça não fez para os adolescentes atuais, mas certamente prestou serviços e favores para seus familiares.

ALGUMAS DAS MIL FRASES EM RELAÇÃO A ZELITO CALAÇA:

“Foi o homem que mais prestou serviços ao povo da nossa terra. Estava pronto para atender a crianças pobres e idosos a qualquer hora do dia. Foi o maior médico de todos os tempos”Tica Flor, professora.

“Salve meus amigos e minhas amigas essa figura que é o doutor Zelito Calaça” – Padre Antas.

– “Zelito Calaça, o Januário Cicco de Pedro Avelino” – Professor João Bosco da Silva.

“O maior médico do mundo é Zelito” – Luís Costa, conhecido como Luís Peninha, telegrafista.

“Daqui a mil anos não teremos um Zelito Calaça. Foi o homem que mais prestou serviços na saúde da nossa terra” – Rômulo Figueredo, vereador.

– “Se foi o herói de Pedro Avelino” – Zé Galego, filho de Manoel Inês Filho.

“Do início da década de noventa para trás, toda família de Pedro Avelino deve favor a Zelito” – Jairo Ernesto, comerciante e agropecuarista.

Do Facebook de Marcos Calaça / Fernando Caldas.

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