No RN, a cada três poços perfurados, um não possui água

A cada três poços que são perfurados no interior do Rio Grande do Norte, um não possui água. O dado é da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), feito com base nas perfurações de poços realizadas nos últimos três anos. Dos 781 poços perfurados desde  2011, 270 estavam secos. Os 511 restantes nem sempre resultam em boa vazão ou água com qualidade.

Na visão de especialistas, essa baixa resolutividade dos poços se deve, principalmente, às condições climáticas e geológicas do Estado. Por exemplo, 80% da área total do RN está sob rocha cristalina: tipo de rocha com baixa possibilidade de infiltração de água. Regiões como o Seridó e o Alto Oeste do Estado estão completamente sobre esse tipo de rocha. A pouca água que vem da chuva fica infiltrada em pequenas “fraturas” sob o solo. Já no caso da rocha sedimentar, que está presente principalmente no litoral, a estrutura é esponjosa, o que permite a absorção de água e a facilidade de extração do líquido por meio dos poços.

Segundo o geólogo Roberto Pereira, professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), a perfuração de poços é uma política prioritária apenas para as áreas de grande necessidade, uma vez que a perfuração envolve riscos. “Mais de 80% do Estado é semiárido e essas regiões, com exceção do litoral, estão sob o cristalino. Há casos em que você perfura um poço e dá água; perfura dois ao lado e não dá água. Além disso, há risco de dar água muito salobra (com muito sal) e com a vazão baixa”, aponta Pereira.

Mesmo com a baixa resolutividade dos poços, a Semarh mantém o foco na política de perfuração – principalmente, para as áreas rurais, que não têm acesso ao sistema de abastecimento da Companhia de Águas e Esgotos do RN (Caern).

Segundo Telma Tostes Barroso, coordenadora de hidrogeologia da Semarh, solicitações para aberturas chegam diariamente à secretaria. “Temos mais de quatro mil pedidos tramitando para a perfuração. Os nossos geólogos fazem a locação dos poços e liberam as licenças, depois enviamos os técnicos para perfurar”, explica a geóloga. Antes da liberação do poço, segundo Telma, são analisados a área de instalação, como relevo, clima, vegetação.

Entretanto, até o momento da perfuração, é impossível ter plena certeza se o poço possui ou não água. Telma Tostes defende que, mesmo com o risco, é preciso manter as perfurações. “Mesmo que os poços rendam pouco, são regiões que não possuem abastecimento, então mesmo que seja salobra você pode usar um complemento, com dessalinizadores. Água não é só para beber, ela também pode servir para irrigar, lavar”, completa.

Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e especialista em hidrogeologia, José Braz ressalta que a perfuração de poços é uma política necessária, mas é preciso definir um critério. Isso porque encontrar água nas rochas do RN é tão difícil quanto encontrar petróleo: as apostas e os riscos são altos. A perfuração de um poço no cristalino varia entre R$ 15 e R$ 18 mil; já no sedimento, entre R$ 30 e R$ 50 mil, segundo a Semarh.

“Você não tem como dizer, a partir de uma perfuração de sucesso, que 50% da região tem água. Isso depende da geologia e hidrogeologia do Estado. Hoje, há algumas tecnologias, métodos geofísicos, para ter uma maior segurança, mas mesmo assim isso não funciona 100%. Precisa mais investimento em pesquisa, uma parceria com institutos que avaliassem melhor as perfurações”, sugere.

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